Toca do JENS


Classificados

Não sou homem de ficar passivo diante dos contratempos da existência. Assim, decidi ampliar os horizontes profissionais, a fim de vitaminar as finanças e colocar um ponto final nas reclamações dos credores todos os finais de mês. Além disso, a reação à fila de comerciantes impacientes que se forma na porta do castelo nestas ocasiões está ultrapassando rapidamente o território das maledicências sussurradas nos corredores e adentrando no perigoso terreno dos protestos explícitos e irados.

- Isto é uma pouca vergonha.

- Aposto que tem sacanagem no meio.

- As crianças estão assustadas. Esta porra tem que acabar.

Temendo o linchamento, não vi outra alternativa que não fosse diversificar as fontes de renda. Sendo mais claro: seguindo uma tendência cada vez mais em voga no país, guardei os escrúpulos no fundo da gaveta das cuecas e, com o denodo que caracteriza um bagual de boa cepa, fui à luta em busca de novos clientes. Se me pagarem, escrevo qualquer negócio.

Esta postura agressiva deu resultado. Aluguei minha pena para três pequenos audaciosos empreendedores, necessitados de uma igualmente audaz assessoria de imprensa e marketing para impulsionar seus negócios. A seguir, apresento-os ao distinto leitorado, que tem direito a 10% de desconto nos serviços oferecidos.

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Madame Veridiana – Recém chegada da Bahia, com estágio de aperfeiçoamento em São Paulo, onde foi monitorada pessoalmente por Madame Zora Yonara, Madame Veridiana possui dons extraordinários para acabar com olho grande e reatar casos de amor. Além de botar cartas e jogar búzios, desfaz trabalhos de magia negra, branca, azul, amarela, vermelha, verde e furta-cor. Traz a pessoa amada de volta em dois dias, arrastada pela orelha. Também atua na área da saúde, sendo comprovada sua competência em solucionar, entre outros, casos de lumbago, espinhela caída, mau-hálito, surdez, prisão de ventre, hemorróidas, impotência e frigidez. Atende de segunda a sábado, das 14 às 22 horas. Preços a combinar, de acordo com a magnitude do trabalho a ser realizado. Endereço: Rua da Arruda, número 7. Telefone (51) 1366-6666.

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Laras Drink’s Bar – Onde você encontra belas garotas com toda exuberância, beleza e sensualidade que só você merece. Às terças, Banho de Espuma; às quintas, Buffet Sexy; aos sábados, Piscina de Cerveja; às segundas, atendimento médico gratuito. Todas os dias uma festa diferente, com decoração, garotas variadas, animais quadrúpedes e anões besuntados em legítimo azeite de oliva extra-virgem. Em breve, Cabine Erótica. Local de excelente nível. O atendimento é feito pelos simpáticos proprietários Boca e sua consorte Zuleide de segunda a domingo, das 22 às 5 horas. Endereço: Rua B da Invasão da Aberta dos Morros, sem número. Telefone: (51) 6996-9669.

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Boteco do Vavau – Com o fim do Bar do Nereu, o Boteco do Vavau tornou-se o reduto natural dos amantes da boa bebida e da boa comida. No quesito alcoólico, além das óbvias loiras geladas, a casa oferece desde drinques populares como guaco, losna e barrouda até os tradicionais Natu e Cavalo Branco para os que gostam de mais requinte. Os fregueses de maior poder aquisitivo têm a opção do velho e bom Jack Daniel’s, o uísque de milho feito no Kentucky. Para os paladares refinados o estabelecimento coloca a disposição uma carta suculenta de petiscos, tais como ovos em conserva (inclusive os de cordorna, extremamente apreciados por suas qualidades afrodisíacas), coxas de frango, pasteis de carne e salsichão. Tudo preparado com extremo zelo e asseio por dona Zulma, a cozinheira, com 48 horas de antecedência. Aos domingos, pela manhã, tarde e noite, churrasco no tonel. Éplocer, Elixir Paregórico, Engov, Sonrisal e Sal de Frutas Eno a preços módicos. Fecha às segundas. Nos demais dias, atendimento das 10 da manhã à 1 da madrugada. Endereço: Quebrada do China, 33. Telefone (51) 5151-3333,

(Na foto acima, eu e a doce Laurinha em frente ao estabelecimento, em flagrante captado por meu associado Moah).

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Moças e rapazes, divirtam-se no findi.

Arriba.

Escrito por Jens às 14h38
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Passeio noturno

Voltando de táxi de uma noitada com o Caloca e a Marisinha – o intelectual eternamente desempregado e emburrado sentado ao lado do motorista; no banco traseiro minha secretária eventual e gostosa em tempo integral e eu, desfrutando do calor da sua coxa roliça grudada na minha. Desalentado com a incompreensão patronal que não reconhece meu talento, estava com a cabeça recostada no peito saliente e acolhedor da musa, enquanto a mão repousava delicadamente numa das ancas opulentas e macias. Carinhosa e compreensiva, dizia com aquela voz quente e doce que as mulheres usam para consolar e animar os homens: “tudo vai dar certo, chefinho”.

Apesar de inebriado, mantinha o senso de direção. “Entra aqui”, disse para o motorista. Era a rua do Cemitério da Vila Nova, o caminho mais econômico para chegar ao castelo.

Ao ouvir a ordem, o Caloca, ressurgiu das brumas da sonolência alcoólica. “Não, por aí não”, protestou histérico.

“Por que não?” indaguei irritado.

“Não passo em frente a cemitério. Quem não é visto não é lembrado”, respondeu o intelectual forjado em leituras minuciosas de Marx, Lênin e Trostky.

Pensei em mandá-lo à merda. Porém, Bob, a consciência crítica, ponderou que o a objeção fazia sentido, ainda mais para um cara como eu, que acredita não apenas em almas do outro mundo, como em lobisomens e vampiros e outras aberrações das trevas. Uma pressão sutil de Marisinha aconchegando-se a mim fez com que cedesse aos choramingos do intelectual e mudasse a rota. A corrida encareceu 10 paus. Mas valeu a pena.

(Depois fui ressarcido pela firma, mediante apresentação da nota. Meu associado Moah sabe que o jornalismo é caro).

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Baixaria – Comentário maldoso que ouvi no rádio: depois da mulher samambaia, da mulher moranguinho e da  mulher melancia, o Ronalducho descobriu mulher aipim. 

Repúdio veementemente a baixaria. Tsc, tsc, tsc…

(Comentário do Bob: hihihi…).

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Terror na madrugada – Tarde da noite. Edifício Glasgow, 15º andar, apartamento 1504. No quarto acanhado, mobiliado parcamente com cama de solteiro, mesinha de cabeceira, abajur e roupeiro, Leonor dorme profundamente com as costas voltadas para a parede, encolhida como um bebê no útero. Está calor, por isto apenas uma surrada camiseta cinza com a estampa I coração NY no peito (herança de uma antiga paixão) cobre o corpo sereno, bonito na sinuosidade de reentrâncias e saliências maduras. De repente, ela geme baixinho em resposta a carícias ousadas de mãos pacientes que desnudam e deslizam com suavidade pelas costas morenas. Estremunhando, começa a fazer as conexões neurais necessárias para explicar racionalmente a substituição da paz do repouso por aquele bem estar morno que conhece tão bem. Quando a letargia dá lugar à lucidez, Leonor percebe que o toque gostoso não é um sonho bom, mas uma realidade distorcida. Alerta, localiza-se no tempo e no espaço e, já sentindo a invasão do medo, se dá conta de que mora sozinha e não poderia haver ninguém com ela na escuridão do quarto. Principalmente nas suas costas, a não ser que estivesse saindo da parede.

A não ser que sejam eles...

Não, eles não! Não, agora.

Grita, mas não é ouvida. Seu reino já não é deste mundo.

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Beijos, prendas. Abraços, tauras.

Escrito por Jens às 15h52
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Veni, vide, vici

Fui, vi, venci e voltei, contrariando os boatos pérfidos segundo os quais teria perdido o tino de vez e saído sem rumo pelas ruas alegres da cidade, depois da conquista do campeonato pelo Glorioso Gigante Vermelho dos Pampas. O desatino de fato ocorreu, mas durou apenas 24 horas.

Também não é verdade que tenha dado o golpe redentor no mercado e transferido o endereço para o Caribe. Ainda não foi desta vez.

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Fechamos o jornal na quinta-feira passada. Fizemos em apenas quatro dias, pois, como sempre, deixamos tudo para a última hora. Impressionante que o nosso (meu e do associado Moah) desorganizado método de trabalho tenha resultado num bom produto final. Ficou coxudo. Vencemos de novo. Quem quiser conferir, em PDF, é só clicar na imagem abaixo.

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Sexta-feira foi o dia do Jantar das Mães, patrocinado pelo amado chefe Simon no Grêmio Náutico Gaúcho. Boca livre ampla, geral e irrestrita. Comilança, beberança e bailança, com direito a show do André Damasceno, o Magro do Bonfa. No dia seguinte tinha a festa de aniversário da querida amiga virtuial Mari Riccordi, a bela soberana dos Riscos e Rabiscos. Porém, condições físicas debilitadas, em razão dos excessos da noitada anterior, não me permitiram comparecer.

Sorry, Mari.

Feliz aniversário, Mari.

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Em 1979, sob o governo do general Figueiredo, participei da primeira greve dos bancários depois da edição do AI 5, 11 anos antes. Eram tempos cinzentos, com uma legislação draconiana que proibia greves e manifestações estudantis. Fomos para o pau e recebemos o troco. Trabalhava no Banrisul e não perdi o emprego de imediato, como muitos outros companheiros. Cozinharam-me em fogo lento, negando troca de horário e abortando uma transferência prometida e cobiçada para o departamento de Marketing. Ainda no período, protagonizei, na avenida Paraná, sede da Polícia Federal, um desagradável interrogatório com delegado Fuchs, o superintendente da PF no RS. 1 ano depois levei o definitivo pé no traseiro.

Nunca me ocorreu pedir qualquer tipo de reparação por ter participado ativamente da greve. Afinal, sabia que havia uma tempestade de merda e mesmo assim fui para a rua. As perdas foram conseqüências da minha opção.

No entanto, estou tentado a mudar de opinião.

Ontem abri e geladeira e fiquei penalizado com a solidão da velha garrafa de água. A pobrezinha chorava com saudade de velhos companheiros, como leite, frios, carne, ovos, legumes, manteiga, frutas...

Diante do desalento que viu no meu rosto, Bob, a consciência crítica, bateu duro: “deixa de ser trouxa, tonto. Pede!”

Meu implacável amigo se referia ao pedido de indenização da Bolsa Ditadura, por danos econômicos, morais e psicológicos. Ora, se o Carlos Heitor Cony, o Ziraldo e o Jaguar, entre outros, pediram e levaram, por que eu não posso também pedir e levar?

Aliás, aconselho que façam o mesmo aqueles camaradas do Bradesco, Itaú e outros bancos privados que foram demitidos sumariamente depois do movimento. Afinal, tiveram o desenvolvimento de suas carreiras ceifado pelo arbítrio da ditadura militar. Hoje, poderiam ser gerentes, diretores, ou até mesmo presidentes de bancos (o Lázaro Brandão não começou como contínuo e virou presidente do Bradesco?). O Estado nos deve reparação.

À luta, companheiros!

Bolsa Ditadura Já!

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Então, tá. Ficamos assim: voltei. Estava morrendo de saudade. Nunca mais vamos nos separar, prometo.

Deixem a porta aberta – vou aparecer a partir desta segunda. Não tenho hora para chegar e muito menos para sair.

Beijos rubros, amiguinhas. Abraços pulsantes, amiguinhos.

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Boa semana para todos nós. Arriba!

 



Escrito por Jens às 16h26
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Um lídimo campeão!

 O melhor lugar do mundo é aqui. E agora.

Volto na sexta-feira. Por enquanto, pauleira pura. Meu nome é trabalho.

Beijos, abraços, hips e hurras!

Boa semana pra todos.

Escrito por Jens às 21h13
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O fim de uma era

 

Putaquiuspariu três vezes! Sobrevivi, de novo!

Como sempre, fico maravilhado ao descobrir que permaneço vivo após uma jornada de orgia totalmente descontrolada.  Acho que os Deuses do Céu e da Mata vão com a minha cara.

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Tá, o leitorado amigo e amado (ôi, belas; olá, garotos) deve estar querendo saber o que foi que houve.

Bem, muitas emoções.

Depois do foguete (presumo que todos saibam do que se trata) da terça-feira, estava determinado, durante o resto da semana, a recolher-me aos recônditos do castelo. Isto antes do telefone tocar na noite de quarta. Cometi a imprudência de atender. Era o meu associado Moah, aos prantos:

- Jens, estão acabando com o Nereu.

Até aí nada demais. Era uma morte anunciada. Afinal, a cerimônia oficial de falecimento do boteco (retratado na foto acima. O indivíduo à frente é o Agenor, ex- garçom) já havia ocorrido dias atrás, promovida justamente pelo Moah, em companhia de sua doce Laurinha (os interessados pesquisem os posts anteriores. Estou sem saco e, muito menos, neurônios).  Fiz a observação óbvia - “o Nereu se fudeu, antes ele do que eu” - ao meu nobre companheiro, que me mandou tomar dentro:

- Seu porra, tão fexchando o Nereu. É o fim de uma era. Vem aqui, c...!

Fui, percebendo que o caso era grave, diante de uma admoestação tão vigorosa que incluía o “fexchando”, só usado em situações extremas.

Ao chegar, a primeira coisa que notei foi o caminhão de mudança estacionado na porta do Bar, agora, ex.

Foi na batata, pra usar uma gíria do saudoso Nelson. Entrei e sem perguntas já meteram um copo na minha mão. Logo em seguida foram chegando os parceiros: Moah, Baiano, Duca, Wanderley, "Sobrevivente", Nilo, Seu Cruz, Seu Alberto, Dona Antonia do cigarrinho, o Zelador, o Camelô da Assis Brasil, o Papeleiro, o Guarda, o Pintor de Paredes, o Jorjão, o Caloca, a Marisinha... e assim, com o bar cheio em meio aos trabalhadores da mudança que carregavam coisas e loisas, o Nereu ia servindo gratuitamente o que ainda restava de bebida e, não contente, assim que levaram o balcão, geladeiras, mesas e cadeiras, mandou botar carvão no meio-tonel instalado DENTRO DO BAR! Quer dizer, uma vaquinha aqui e ali, mais carne, mais cervejas e coca-cola pras gurias... O babado foi ficando forte. Não sei ao certo a hora que deixei a boca. De lá, fui pra outros lugares.... Enfim, cometi mais uma daquelas esbórnias juvenis... Segui noite adentro em companhia do velho Jack e de jovens loiras. De alguns lugares saí sem pagar, outros não lembro, etc... Só não rolou barraco forte.

Os deuses me amam.

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Bom findi. Gandaia pra vocês. Quanto a mim, pretendo repousar até domingo antes do jogo do Glorioso Vermelho dos Pampas. (Torçam juntos, please!).

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Beijos, maravilhosas. Abraços, nem tão maravilhosos assim.

De repente, apareço em vossas moradas no findi. Estou um tanto quanto engatado (meu nome é trabalho).

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Façam novenas , mandem rezar missas. Tenho que fechar o jornal até a semana que vem. Preteou o olho da gateada.

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Ah sim, o poeta Thomas Stern Eliott estava certo: abril é o mais cruel dos meses.

 



Escrito por Jens às 01h19
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Em nome da lei

Ainda estou agastado com o presidente Lula e a ministra Dilma por não terem se lembrado de mim no rega-bofe que marcou o casamento da mana mais velha do PAC. Tudo bem. Não sou homem de guardar rancor. Apenas sigo o que recomenda o bom e justiceiro Velho Testamento: a vingança será minha.

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Destarte, pretendo apresentar aos nossos próceres uma proposta que vai revolucionar a Justiça brasileira, contribuir para esvaziar os presídios e aprimorar a democracia em nossa pujante nação. Dado o caráter humanitário e igualitário do projeto, acredito que a oposição não apresentará óbice.

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A jogada é a seguinte: criar a Bolsa Advogado. Observando o sucesso de brilhantes operadores do Direito na missão de livrar das grades seus igualmente ilustres clientes de grosso calibre social, tive a democrática idéia de estender este privilégio às camadas carentes da população. É simples: mensalmente o governo deposita uma verba para cada cidadão despossuído em uma conta que só poderá ser movimentada para fins de defesa jurídica. Isto é, quando o cara cometer um crime a grana vai estar à sua disposição para contratar os melhores causídicos do país. A CEF, o BB e o BNDES também poderiam entrar no esquema abrindo uma linha de crédito popular a fundo perdido, no caso do montante disponível ser insuficiente para fazer frente aos custos de uma defesa ampla, capaz de lançar mão de todas as chicanas ocultas no Código Penal, que só os profissionais mais qualificados têm conhecimento. Por que apenas ladrões e assassinos de colarinho branco podem usufruir das benesses de uma defesa jurídica solidamente embasada?

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Para a cerimônia de lançamento da Bolsa Advogado poderiam ser convidados o jornalista Antonio Pimenta Neves e o empresário Law Kim Chong, exemplos máximos de matar, roubar e se dar bem. O primeiro meteu três balaços nas costas da namorada, foi julgado, condenado e está livre. O segundo é o maior contrabandista do Brasil, várias vezes preso pela Polícia Federal e, imediatamente, liberto pelo judiciário. Ambos têm sob soldo os melhores advogados do país.

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Aliás, também poderia estar presente o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, representante máximo da justiça que mantém esta corja em liberdade.

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É lógico que vou reivindicar uma módica compensação financeira pela idéia (nada que a ministra Dilma não possa pagar com o cartão corporativo). Espero que ela e o presidente não me decepcionem mais uma vez.

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Hal 9000 – Em 29 de abril de 1968 estreou nos cinemas brasileiros o filme 2001: Uma odisséia do espaço, de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke. Um dos principais personagens era o computador Hal 9000 (retratado acima), avô do meu leal companheiro Hal. Aproveitei a ocasião e convidei a turma para assistir a exibição do filme em CD pirata, seguida de uma sessão de drinques e petiscos no castelo, mediante a contribuição de 20 paus por cabeça. Vieram todos: Odaléia, a doce e prestativa vizinha; Marisinha, musa, secretaria eventual e paixão enrustida; Caloca, intelectual orgânico eternamente desempregado e emburrado e o Jorjão, contumaz barranqueador de éguas, que ficou particularmente feliz por poder deixar no estacionamento, graças à minha influência com o pessoal da portaria, a carroça onde estava atrelada sua amásia, a graciosa tordilha Mansinha.

Hal chorou.

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Day after – Estou de ressaca moral, como o Ronalducho. Acho que vou morrer. Pior ainda, tenho que tirar a bunda da cadeira e ir a campo para fazer as matérias do Marca da Cal. Quero a minha mãe!!! Ai, ai, ai...

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1º de maio – “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos. Nada tendes a perder, a não ser vossos grilhões.”

Beijos e abraços para todos.

O velho Karl manda lembranças.

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PS de Bob, a consciência crítica – zelando pela clareza da informação, informo que a frase é do Manifesto Comunista. E Karl é o velho Marx.  O Jens está um trapo. Ficou até de manhã na fuzarca com a cambada que ele chama de turma.

Aproveito para desejar a todos os leitores um bom feriado. Um beijo especial para as gatas do pedaço.

Arriba!

Escrito por Jens às 10h25
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Bolinhos e prêmios

Caiu um toró e está começando a esfriar. A continuar assim, semana perfeita pra comer bolinhos de chuva, ver tevê e beber café com leite (não vivo apenas de Jack Daniel’s, apesar dos boatos espalhados por desafetos maledicentes).

Promessas de delícias no ar. Odaléia, minha doce e prestativa vizinha, comprometeu-se a fazer uma visita acompanhada de uma fornada de guloseimas e um CD pirata de Valente, o último filme da bela Jody Foster.

Sou um homem simples que se contenta com coisas simples.

Felicidade é isto.

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Gold – Gosto de receber elogios, como todo mundo. Mas o Ery exagerou. O relato sobre minhas desventuras no casamento da irmã mais velha do PAC, postado na semana passada, mereceu dele o galardão Post de Ouro e comentários pra lá de elogiosos. Pra ler, clic na imagem abaixo.

Fiquei ruborizado e envaidecido.

Thanks, camarada.

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Caudilhos – O jovem e combativo Piero, mais um escriba em vias de formar-se em jornalismo, companheiro de baladas da minha herdeira Mariana Timm, entusiasmou-se com a idéia de criar um selo e criou o Este Blog é Escrito por um Baita Caudilho, que dividiu com a Toca.

Caudilho aqui deve ser encarado pelo seu lado positivo, isto é uma pessoa de fibra, que não hesita em emitir opiniões fortes, mas que não abre mão da saudável divergência democrática.

Isto posto, apresento a lista dos meus indicados:

A valente Magui, diferenças ideológicas à parte, o combativo Jean, o irascível e bem bem-humorado Pirata, a doce e perspicaz Reg, diferenças clubísticas fora,  e o implacável Roy.

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Bagual  - Em breve,  teremos mais distribuição de prêmios por aqui. É o tão aguardado Este é um Blog Bagual. Este, no entanto, sob minha responsabilidade exclusiva. A Luma fez a arte. Ficou legal pra caramba. Aguardem.

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Cabeça - Nos anos 70 Sam Peckimpah fez um filme intitulado Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia. Depois do jogo de domingo, quando o glorioso Inter perdeu de 1 X 0 para o Juventude, estou pensando em lançar uma campanha de nome semelhante: Tragam-me a Cabeça de Fernandão!

Numa bandeja de prata.

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Mistério Por que é que as vezes o xixi sai incolor?

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Beijos, gurias. Abraços, guris.

Boa semana pra todos nós.

Arriba!

Escrito por Jens às 16h25
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Boda

Na sexta-feira que antecedeu o feriado de Tiradentes, aconteceu aqui em POA o casamento da irmã do PAC, isto é a filha da ministra da Casa Civil Dilma Roussef. Festerê no Leopoldina Juvenil, clube chic da city.

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Confesso que, naquela semana, estava alheio ao noticiário em geral, preocupado com minha situação financeira. No entanto, ao saber do evento, fui imediatamente abrir a caixa de correspondência. Droga, só contas. Não me abalei. Otimista, julguei que o meu convite deveria estar chegando por mensageiro especial. Assim, tratei dos preparativos: agendei hora no barbeiro (guasca não vai ao cabeleireiro), aluguei uma fatiota (“Igualzinha a um Armani", me garantiu a dona do brechó), engraxei os sapatos e tomei um demorado banho de 15 minutos.

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Meu otimismo não era despropositado. Afinal, conheci a companheira ministra no tempo em que ela ainda jurava amor eterno ao PDT gaúcho. Nos anos 90, cheguei mesmo a participar de alguns eventos da campanha eleitoral do pai da noiva, o então deputado estadual Carlos Araújo. Um dos dois haveria de lembrar-se de mim. Ou então, certamente, o companheiro Lula os faria lembrar (“Festa em Porto Alegre? Convidaram o Olívio e o Jens?”).

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Estava tranqüilo até o meio da tarde, quando pressenti que havia algo errado. O convite não chegava. O mensageiro poderia ter sido raptado. Pensei em telefonar para Brasília, mas a insensibilidade da Brasil Telecom havia me deixado sem comunicação com o mundo exterior. Apreensivo, enfatiotei-me e fui tentar uma carona com um dos meus amigos cobradores de ônibus. A solidariedade da classe trabalhadora mais uma vez vingou – graças ao físico esbelto, passei com relativa facilidade por baixo da roleta, com danos mínimos ao meu traje. Ainda não tenho idade para desfrutar do passe livre para a terceira idade. Felizmente (ou o contrário, dependendo do ponto de vista).

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No centro rumei célere para a igreja. Antes parei em uma lojinha de 1,99 e comprei (fiado) uma plaquinha  de madeira onde estava talhada a frase “Meu Lar é Meu Tesouro”. Um mimo para os nubentes.

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No local havia um cinturão de segurança formado pelos homens da mui leal e valerosa Brigada Militar, que impedia o acesso da malta ignara ao templo do Senhor. Apesar dos meus argumentos (“Porra, sou camarada do Lula”, “Conheço a Dilma desde criança”) os ciosos homens da lei barraram o meu acesso. Dominado por um turbilhão de emoções contraditórias (olhos marejados e boca espumando de raiva), vi de longe a passagem dos convidados, entre os quais nove governadores (“Ô Requião, olha eu aqui!") e nove senadores. Até o Sarney estava lá (“Abaixo a Nova República”, vociferei para o prócer maranhense, lembrando os bons tempos). A ministra Dilma não ouviu os meus berros (“Ô, sua sacana, e eu?!”). O mesmo aconteceu com o presidente Lula (“Esqueceu dos velhos companheiros, seu porra?!”). Senti uma faísca de reconhecimento no olhar terno da primeira-dama Marisa quando uivei como um cão abandonado (“Ajude-me!”). Os seguranças, porém, não permitiram a aproximação redentora.

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Abatido, retornei ao castelo. Desta vez passei debaixo da roleta como uma minhoca. Nem me importei com os gracejos irônicos dos demais passageiros. Ingratidão dói.

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Mas a vingança é um prato que se come frio, ensinaram os gregos. No fim deste ano tem a festa de formatura da minha herdeira Mariana Timm. Churrascada e cervejada. Não vou convidar ninguém daquela cambada. F...-se!

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Ah sim, parcelei o aluguel do terno (100 pilas, incluindo sapatos e meias) em duas vezes. A primeira parcela vence na segunda-feira. Mandei a conta pra Dilma pagar. Com o cartão corporativo, é claro. (Depois vou telefonar pro Arthur Virgílio, só de sacanagem. Eu sou mau).

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Ganhei um mimo legal da Elo – o selinho (acima) que garante que este é um blog muito bom, sim senhora! Agradeço ruborizado e repasso-o para mais sete amigos. A Adelaide, a Crisete, a Dora, a Loba, o Ery, o Lino e o Moacy.

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(PS: tenho uma proposta para criar um selo: "Este é um blog Bagual!" Quem se habilita a fazer a arte? Não faço porque não sei).

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Beijos, deusas. Abraços, capetas.

Muita festa no findi.

Arriba!!!

Escrito por Jens às 23h40
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Saudade da Amélia

Passei o feriado de quatro.

Calma, não é preciso tirar as crianças do recinto. Não tem sacanagem. Ainda.

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Atendendo aos apelos da vizinhança e uma intimação do síndico, fui obrigado a promover uma faxina ampla, geral e irrestrita no castelo, tarefa que vinha adiando por três meses. Num evidente exagero, alegaram que a falta de limpeza na residência estava se tornando uma ameaça à saúde pública, como se algumas bolotas de poeira (que nem aquelas que aparecem nos desertos dos filmes de cowboy) e umas placas de sujeira espalhadas pelo chão pudessem causar mal a alguém. Só estavam sendo prejudicadas as eventuais moscas atraídas pelo meu desprezo a esta mania burguesa de asseio – foram todas abatidas pelas implacáveis Berta e suas irmãs (ou filhas, não sei bem o grau de parentesco entre elas). Berta é a aranha assassina a quem dou guarida desde o último verão. Gostou tanto que trouxe a família.

Porém, como sou um brasileiro cordial, atendi aos reclamos da comunidade e fui à luta, munido de vassoura, esfregão, balde, espanador, desinfetantes vários e meia garrafa de Jack Daniel’s by Paraguai. Antes, tentei convencer alguma vizinha caridosa a auxiliar-me. Não deu certo. Onde foi parar meu velho charme irresistível? Já não sou mais o mesmo (esclareço que a doce e prestativa Odaléia estava viajando).

Não vou entrar em detalhes sórdidos, mas informo que a tarefa foi bem sucedida. Não  direi que o castelo ficou um brinco, mas dá até pra comer no chão (inclusive do banheiro), se alguém cultivar este tipo de tara.

***

Este é um dos poucos inconvenientes de morar sozinho, mas largamente compensado por comodidades como não precisar fechar a porta do banheiro e muito menos ter maiores cuidados ao levantar a tampa do vaso ou preocupar-se com a mira na hora de fazer o número 1. Também é legal poder andar de cueca pra lá e pra cá ou, nos dias de muito calor, trabalhar pelado. Neste caso, é importante não esquecer de fechar as cortinas ou baixar as persianas. Por causa de um lapso desta natureza, no final do verão recebi uma multa da administração do condomínio por atentado ao pudor. Quase deu polícia.

***

Voltei a falar, depois de 36 horas de mudez. O telefone tocou.

- Alô, quem fala?

- O sr. Jens está?

- Quem fala?

- Aqui é Suzana, gerente do banco da praça (não vou fazer propaganda de graça pra estes usurários). Com quem estou falando?

- Hummm... herrr... aqui é o dr. Demóstenes. O Jens não mora mais aqui. Se mudou.

- Por acaso o sr. teria o seu novo endereço ou telefone?

- Não, por acaso eu não teria.  O sacripanta escafedeu-se. Também estou à sua procura. Me vendeu o apartamento com seis meses de condomínio em atraso.

- Então tá. Obrigado.

- Não por isso, benzinho.

***

Já está nas ondas da web mais uma edição do Marca da Cal, a publicação que me garante os petiscos e os drinques dos finais de tarde. Esta edição traz a cobertura completa do 27º Congresso Nacional das Entidades de Árbitros de Futebol, que aconteceu em POA no final de março. Para ler, em PDF, é só clicar na imagem abaixo.

 

***

Beijos, gatas. Abraços, marmanjos.

***

PS: no Firefox o título tá saindo pequenininho. No Explorer tá legal. Não me perguntem a razão. Mistérios da web.

 



Escrito por Jens às 22h50
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O homem magro

O homem magro, negro, de terno, gravata e chapéu com a aba quebrada, intimou o mulato claro de calça escura e camisa branca esporte:

- Levanta, vamos embora.

O jovem, que repousava a cabeça entre os braços cruzados em cima a mesa, abriu os olhos avermelhados sob as pálpebras inchadas:

- Me deixa.

O homem magro avaliou o ambiente: uma espelunca encravada no centro da rua Cabo Rocha, no bairro Praia de Belas, o local mais barra pesada do submundo miserável da Porto Alegre do início dos anos 50. Covil de rufiões, traficantes, ladrões, assassinos. Lar de proxenetas e marafonas. Se fosse encontrado morto em alguma viela o fato não causaria maior interesse à sociedade em geral. Uma notinha num canto da página policial dos jornais e nenhuma providência por parte da polícia. Aquela era uma terra sem lei e sem ordem, especialmente para um homem como ele: negro e pobre. Mas tinha uma missão a cumprir.

- Vem, vamos embora, insistiu pegando o mulato pelo braço.

Um homem gordo, negro, vestindo um ensebado uniforme da Aeronáutica com a insígnia de sargento no braço, falou com voz de mando, exibindo um grande dente de ouro:

- O guri não vai a lugar nenhum. Ele quer ficar.

Além de malcheirosa, a espelunca era mal iluminada. O cheiro era uma mistura de maconha, sexo doente, cigarros, bebida barata e láudano, muito láudano. Poucos fregueses se abrigavam sob a fraca luz vermelha: em pé, recostadas no balcão, duas mulheres com pintura demais no rosto e roupa de menos no corpo; sentados, numa mesa de canto, o homem gordo com três capangas, bebendo cerveja e mais alguma coisa em copos pequenos que ele não soube identificar; e o jovem sentado à sua frente.

- Ele vai comigo. Tem que ir, respondeu o homem magro com calma.

- Talvez tu não saia daqui. Não vivo, retrucou o gordo, colocando um punhal brilhante sobre a mesa.

Os valentões sorriram.

O magro sabia que era potencialmente um homem morto. Mas não tinha escolha. Tinha que seguir em frente.

- Pode ser, ele disse, mas vou tentar a sorte. Apoiou-se com força em uma cadeira vazia, que planejava arrebentar na cabeça do gordo, caso fosse necessário.

O sargento ficou intrigado.

- Por que o interesse? O guri é teu amante?, indagou, limpando uma unha grande e suja com a ponta da adaga.

O outro não se perturbou.

- É meu sobrinho. Faz três dias que sumiu de casa, por causa das drogas, cocaína e láudano. A mãe está desesperada, os três irmãos menores estão aflitos. O pai, meu irmão, faleceu três anos atrás. Eu também sou seu padrinho. Sou responsável por ele.

Um resgate familiar. Um compromisso de honra. Isto o homem gordo era capaz de entender. E respeitar.

- Hoje é teu dia de sorte, paisano. Leva o frangote. Te garanto salvo conduto, disse o gordo.

Voltou-se para um dos capangas.

- O paisano está sob minha proteção. Ninguém toca.

O vassalo saiu para espalhar a ordem.

O homem magro ergueu o mulato claro e saiu, amparando-o pelos ombros. Na porta, virou-se e fez uma saudação final ao gordo, tocando a aba quebrada do chapéu. O gordo respondeu com um aceno amistoso com o punhal.

***

Aconteceu em uma era quando gigantes habitavam estas plagas. Bons e maus. Alguns deles capazes de demonstrar honradez nas situações mais perigosas e inusitadas.

***

O homem magro, negro, de terno, gravata e chapéu com aba quebrada ainda não sabia, mas alguns anos depois se tornaria meu pai.

O meu herói.

***

Beijos, meninas. Abraços, meninos.

Bom findi pra todos nós.

Escrito por Jens às 19h50
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Elucubrações

Faz mais de 24 horas que não pronuncio uma palavra. Desde a meia-noite de ontem. Durante o dia não tive nenhum motivo para falar – não sai de casa, o telefone não tocou, ninguém veio me visitar e não ouvi nenhuma canção que desse vontade de cantar.

Fiquei pensando: e se eu perdi a capacidade da falar? De repente estou mudo e não sei. Claro que poderia esclarecer a questão agora mesmo, basta abrir a boca e dizer qualquer coisa: socorro, por exemplo. Ou tareco, uma palavra do tempo da minha infância querida que os anos não trazem mais. Porém, prefiro cultivar carinhosamente a dúvida. Meu destino é sofrer. E pecar.

Também quero ver quanto tempo posso prescindir do uso da fala.

***

Estou avaliando seriamente a possibilidade de dar um golpe no mercado. Não um golpezinho qualquer, mas “o” golpe. E não estou falando do mercado da esquina, mas do mercado financeiro. Tenho que pensar no futuro. Mais especificamente, na ilhazinha paradisíaca que pretendo adquirir nas Bahamas para passar a outra metade da existência, com incursões ocasionais a Paris, naturalmente.

Ainda estou na fase inicial do plano. Meus estudos revelaram que o campo mais promissor para o enriquecimento rápido e impune é aplicar um golpe no poder público. Aqui no RS, por exemplo, os caras roubaram R$ 40 milhões do Detran e ninguém cogita seriamente a hipótese de que qualquer um deles vá ver o sol nascer quadrado. Ao contrário, a justiça está esforçando-se para garantir que isto não ocorra, permitindo que não digam uma única palavra comprometedora na CPI da Assembléia Legislativa. Acontecem situações engraçadamente absurdas:

Deputado: O senhor almoçou hoje?

Depoente: Invoco meu direito de permanecer em silêncio, pois a resposta a esta pergunta pode me incriminar.

***

Voltando ao que interessa: estou pensando em abrir uma empresa fajuta e pegar um empréstimo de alguns milhões de reais no BNDES. A fundo perdido, é claro. O ideal seria me eleger deputado federal ou senador. Preciso retomar meus contatos na seara política.

À luta, companheiros.

***

O general inverno já enviou seus batedores. A batalha vai ser dura. Já estou preparando o armamento pesado, a saber: minha super jaqueta de couro e o meu casaco três quartos de estampa xadrez e corte inglês.

Encarangado, mas com charme.

***

Assassinaram mais um bar. O Timbuca, que ficava na beira do Guaíba, no bairro Assunção. Foi abatido a golpes de trator pelos sequazes do camarada Fogaça. Freqüentei nos anos 70, quando era delinqüente juvenil e líder de gangue. Naquela época era o boteco dos muito loucos.

Não que eu fosse (muito louco); só estava lá por acaso.

***

Tá, fui.

Beijos, beldades. Abraços, rapazes.

Arriba!

Escrito por Jens às 00h47
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Batismo de fogo

 

O comandante Jair deu a ordem:

- Porra, sujou! Corre! Corre! Vambora!

Bom recruta, obedeci incontinenti. Sebo nas canelas.

Era cerca de 1 hora da manhã de uma madrugada primaveril de domingo. Estávamos na pracinha central de Ipanema. Eu tinha 13 anos e era a primeira vez que participava de uma guerra com caras mais velhos.

***

Tudo começou ainda no sábado, pouco antes da meia-noite, na festa de casamento da filha do Osmar. O casório estava animado quando os intrusos chegaram. Eram seis, estavam visivelmente embriagados, possivelmente “topados de tóchico, emaconhados e emboletados”, como diria minha mãe. Começaram a fazer arruaça em frente a sede social do saudoso Esporte Clube Ipanema. Queriam participar do festerê.

- Quem são esses porras?, indagou o Chú, líder intelectual da rapaziada.

- Uns merdas lá do Guarujá, informou o Paulo Magro, com a voz engrolada pelo excesso de álcool.

- Isto vai dar merda, vaticinou o Jair, antes de entornar goela abaixo o conteúdo da sua jarra de chope.

Osmar, o dono da festa, confabulou com os indesejáveis. Peremptoriamente, negou acesso ao recinto, mas, procurando evitar o acirramento de ânimos, fechou um acordo de cavalheiros. Deu comida e bebida (um bandejão com churrasco e carne de porco e uma garrafa de Natu Nobilis, para contrariedade do Paulo Magro - “pô,  Natu pra eles e Velho Barreiro pra nós. Isto não tá certo”) e despachou a canalha, que se foi rindo, fazendo referências desairosas à nossa masculinidade, à beleza e à honra de nossas irmãs, namoradas, amigas e, suprema ofensa, mães.

O Beto, meu futuro cunhado, que recém levara minha irmã em casa, com o pai e a mãe, expressou a vontade geral:

- Isto não vai ficar assim. Vamos dar um pau nestes folgados.

Diante do alto calibre das ofensas, o Chú concordou que só o castigo físico poderia limpar nossa honra maculada.

Como agora o assunto era de natureza bélica, Jair, o Senhor da Guerra, assumiu o comando das atividades. A estratégia era simples.

- A gente desce, encontra eles lá na praça e desce o cacete.

Apoiei o plano:

- Vamos arrebentar estes fiadasputa, falei entusiasmado.

Meu futuro cunhado protestou:

- Tu não vai, seu porrinha. O teu velho descobre e eu vou me incomodar.

Subi nas tamancas:

- Uma merda que eu não vou.

O Chú impôs a sua liderança e colocou fim à discussão, dizendo que se eu já podia ficar até tarde na rua e sair com os grandes, também podia encarar paradas indigestas como aquela. Estava na hora de aprender. Porém, desta vez seria apenas um observador, sem interferir no conflito.

- Tá legal, falei.

***

Na praça, o pau comeu. Socos, pernadas, cabeçadas, gritos de dor e xingamentos. O comandante Jair era um gigante (dois metros de altura e dois de largura), orientando suas tropas e, ele mesmo, distribuindo tabefes e pontapés. Eu apenas observava, juntamente com o Paulinho do Martinez, que segurava um sarrafo de boa madeira.

De repente, entramos em ação. Um dos inimigos caiu. De quatro, tentava reerguer-se quando o Paulinho correu e desceu o sarrafo no lombo. O cara disse um aí antes de beijar a terra vermelha. Aproveitei e desferi três pontapés nos países baixos.

- Fala da minha mãe agora, fiadaputa!

Não falou, só gemeu.

O combate durou pouco. Os invasores fugiram em desabalada carreira, como um bando de mulherzinhas. Fui atrás:

- Volta aqui seus bundamol.

Beto me deu um cascudo.

- Sossega, porra.

O chefe dos vilões ficou pra trás, boxeando com o Chú. Na verdade ele oferecia sua cara, inchada e coberta de sangue, para o Chú bater com a elegância natural que imprimia em todos os seus gestos. Bonito de ver. Eu e o Paulinho aguardávamos o nosso momento, ele com o sarrafo, eu ajeitando a botina.

***

Foi então que ouvimos a sirene e o Jair deu a ordem de debandar. Eram os brigadianos do postinho, inaugurando a sua nova viatura. Foi cada um prum lado. Nunca corri tanto. Cheguei em casa ofegante. O pai abriu a porta e perguntou se estava tudo bem (ainda tinha não a chave da casa – direito conquistado aos 15 anos). Bebi uns dois litros de água antes de deitar.

Puta merda, minha primeira briga de rua. Que medo! Que legal!

***

Foi neste dia, naquela praça, que nasceu a maior lenda de Ipanema, o grande líder que iria unificar e comandar por anos a fio as legiões rebeldes que circulavam por aquelas ruas, becos e vielas; o rebelde sem causa que seria amado pelas filhas, odiado pelos pais e venerado por seus pares; o outsider que seria louvado em prosa e verso pelas gerações seguintes; forjou-se ali, naquela madrugada incipiente, o homem destinado a mudar os rumos da...

***

(Perdão pela interrupção, leitores. Aqui é Bob, o botão da calça Levi’s do Jens, sua consciência crítica. Ele está delirando. Estou preocupado com sua saúde mental. Na verdade, depois desta noite, o covardão, que gosta de bater quando o inimigo não pode reagir, nunca mais brigou. Ficou apavorado com a violência.  Enjoou e vomitou quando chegou em casa, preocupando e dando trabalho para o pai e a mãe. Até hoje sua primeira reação diante de um entrevero físico é fugir. Sebo nas canelas é o seu lema).

***

Por hoje é só.

Beijos, belas. Abraços, mandriões.

Arriba!

Escrito por Jens às 22h47
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De volta ao paraíso

 

Yeah! Voltei, voltei! Estou livre, livre!

***

(“É, livre como uma gazela. Deixa de viadagem. Controle-se, recomponha-se, homem!” recado assinado por alguém que se intitula Bob, o botão da calça Levi’s. Impossível checar a autenticidade).

***

Amigas, amigos: o sol  voltou a brilhar  (“Hummm...” comentário de Bob).

Lá e cá, quem devia pagou. Novamente, As Hostes do Bem venceram As Falanges do Mal. Zerado o placar, restabelecida a autoconfiança, bola no centro do gramado para o início de uma nova partida.

***

Foram duros os 10 dias que abalaram meu reinado. Porém, deixaram preciosos ensinamentos que faço questão de revelar publicamente:

O populacho tem razão quando diz que a desgraça não vem sozinha. No meu caso, a débâcle econômica trouxe também a deterioração material, a saber: a persiana da janela da sala quebrou, o chuveiro pifou, o cano do tanque estourou. Como se não bastasse a favelização acelerada do castelo, fiquei uma manhã inteira impossibilitado transportar meu corpo belo e enxuto para fora de casa. Estragou o cadeado com que reforço a tranca da porta de ferro externa da fortaleza (aqui ninguém entra). Fui salvo pela sempre preocupada Odaléia, mais do que uma doce e prestativa vizinha – uma verdadeira santa. Por sorte, o artefato era de origem chinesa e desintegrou-se na primeira martelada.

***

É possível sobreviver à base de uma dieta de sanduíches de queijo e presunto suspeitos (levemente esverdeados), acompanhados por doses regulares e generosas de sorvete e doce de leite. A reposição energética é parcial, mas suficiente para manter em funcionamento a mente privilegiada de um operário da escrita como eu.  Desaconselho enfaticamente qualquer tentativa de manter a saúde do organismo amparado unicamente na ingestão de água e bolachas salgadas. Depois das primeiras 24 horas o indivíduo tonteia e não reconhece os entes queridos.

***

Não sei produzir fora do meu habitat natural. Tentei trabalhar numa lã rause. Foi impossível, ainda mais que o trabalho em questão era o fechamento do vibrante mensário Marca da Cal. A internet é minha religião, e o velho e amado Hal o meu pastor.

***

A BrasilTelecom não é uma empresa deste mundo. Suspeito que o verdadeiro dono seja o Coisa Ruim em pessoa. Vade retro!

***

No Brasil, política é a arte do supérfluo. Depois de 10 dias sem acompanhar o noticiário político constatei que tudo continua como dantes: o beiço de bebê chorão do Arthur Virgílio é o mesmo, o cabelo acaju do Álvaro Dias permanece ridículo e a voz do José Agripino Maia ainda irrita os ouvidos sensíveis. Acho que devíamos dispensar os serviços desta gente, fechar o Congresso e cuidar da vida. (Estranho, o período de dor e opróbrio fez aflorar uma tendência totalitária que até então eu não sabia existir).

***

Coloquem a cerveja no freezer e preparem os petiscos. A partir de hoje retomo a rotina de trabalho insano e doces visitas aos amigos virtuais.

***

Beijos, deusas. Abraços, leais vassalos.

***

Voltei! Libertas quae sera tamem.

Arriba!

Yupi!

(“Hummm...a gazela ainda está solta”. Para todos, um abraço do Bob. Tchau).

Escrito por Jens às 23h18
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Dívidas

Estou devendo e isto me incomoda.

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Antes, uma explicação: todos os que vêm aqui (a maioria alinhada aí ao lado) são meus camaradas virtuais, a minha turma. Com personalidade e pensamento diversificados, todos, acredito, podem integrar a Confraria das Boas Garotas ou o Clube dos Bons Rapazes.

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Gosto de receber visitas e comentários. Este contato virtual é um dos bons momentos do meu cotidiano, quando de repente não estou tão só.

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Concebo as relações afetivas como uma via de duas mãos. Gosto de receber, mas também gosto de dar. Considero importante visitar os amigos e deixar um comentário carinhoso, manhoso, entusiasmado, sacana, sarcástico, provocativo ou francamente contestador, dependendo dos sentimentos que em mim despertam os textos que leio.
Quero ser lido e receber atenção (o que não significa apoio incondicional). Da mesma forma, gosto de ler e dar atenção.
Nos últimos dias, isto não tem sido possível por uma série de motivos: avareza patronal (se elogio fosse grana, eu e meu associado Moah estaríamos ricos. Infelizmente, afagos no ego não podem ser depositados no banco); incompreensão da BrasilTelecom para com as dificuldades momentâneas enfrentadas por um assinante fiel; insensibilidade do meu gerente de banco, incapaz de compreender a necessidade urgente da rolagem da dívida e da concessão de um novo empréstimo. Enfim, enfrento tempos difíceis. Um tempo sem sol. Um tempo de guerra.
Mas esta semana tudo se resolve. De um jeito ou de outro. Como se diz por aqui: perdemos no jogo, mas ganhamos no pau.

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Consternação e bebedeira na cidade. No sábado passado o Bar do Nereu fechou as portas definitivame